O primeiro texto do Blog, O estrangeiro e meio, decorria sobre o estrangeiro que escolhe o caminho de volta à sua terra natal, para seguir com o caminho da vida. Um pequeno ensaio sobre as influências e consequências internas e externas de quem, durante importante parte de sua vida, viveu longe de suas raízes e agora, de volta à casa, encara a nova velha realidade.
Chegou a minha vez, sou estrangeiro e meio. Contarei sobre o meu retorno à terra querida, prometida, tupiniquim. Com 18 anos parti rumo ao Velho Continente, com o peito e a cabeça aberta. Agora, onze anos depois ( cinco na Alemanha e seis na Espanha) e quase trinta primaveras, volto ao meu Brasilzão de Deus com o peito e a cabeça aberta.
Minha vida, até o momento, se construiu através de muitas mudanças. Tenho uma relação forte e amistosa com o diferente, com os câmbios e o desconhecido. Desde muito pequeno ele bate à minha porta e eu abro com um sorriso no rosto. Não isento de medo, claro. Aquele formigamento na barriga sempre me fez olhar para o chão para saber onde pisar.
Parece então brincadeira, porém voltar para o Brasil, depois de tanto tempo, era algo desconhecido para mim.
Não pensei muito, aceitei uma proposta de trabalho e duas semanas depois estava em São Paulo. Todas as pessoas à minha volta falando português e aí começa a primeira reação.
Mais de uma vez, ao sair de uma loja, um bar, ou qualquer outra situação, minha cabeça não entendia bem onde estava. Meus olhos claramente enxergavam a Av. Paulista, meu ouvido escutava o vendedor: “olha o guarda-chuva”, a moça: “que filme veremos hoje, amor”. Meus olhos e ouvidos diziam “olha o Brasil”, mas meu cérebro não processava essa informação como real e por segundos não sabia onde estava e me perdia sem decifrar que idioma tinha que falar com a pessoa ao lado. Uma sensação estranha, angustiante, gostosa, interessante.
Outro dia estava na academia, correndo na esteira, no canal Fox passava o filme “Meu tio matou um cara”. Por ser um canal internacional, meu cérebro associou à Europa e pensei “caramba, que legal, tá passando um filme brasileiro”. Durante cerca de dois minutos estava na Espanha de novo. Olhei para baixo e observei todos caminhando com o gingado e aquele remelexo brasileiro, tomei um susto e ri sozinho. Bem-vindo ao Brasil mais uma vez.
Não passam de pequenas anedotas sem muita importância aparente, mas que fazem parte de um conjunto de transformações. Outras reflexões e anedotas virão em próximos textos aqui no Blog. Contarei um pouquinho mais do Brasil e da relação de repatriado ao lugar querido.









